Especialista destaca que diálogo, exemplo dos pais e atividades atrativas são mais eficazes do que proibições rígidas
O uso de celulares, tablets e televisões já faz parte da rotina de milhões de crianças brasileiras, mas encontrar um equilíbrio entre tecnologia e desenvolvimento infantil continua sendo um desafio para muitas famílias. Em um cenário em que o acesso às telas acontece cada vez mais cedo, especialistas alertam que a simples proibição dos dispositivos costuma gerar conflitos e nem sempre produz os resultados esperados.
Dados de uma pesquisa Datafolha encomendada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal mostram que 4 em cada 10 brasileiros acreditam que as crianças passam mais tempo do que deveriam diante das telas. O levantamento também revelou que 78% das crianças de até 3 anos e 94% das que têm entre 4 e 6 anos utilizam dispositivos eletrônicos diariamente.
As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria reforçam a necessidade de limites. A entidade orienta que crianças menores de 2 anos não sejam expostas às telas e que, entre 2 e 5 anos, o uso seja restrito a, no máximo, uma hora por dia, sempre com acompanhamento dos responsáveis.
Para a pedagoga e escritora infantil Jaci Penteado, o segredo para diminuir o tempo de exposição está em oferecer alternativas que despertem o interesse da criança. Segundo ela, retirar o celular sem criar outras possibilidades de interação tende a aumentar a resistência dos pequenos.

“Os pais precisam estabelecer combinados claros e, ao mesmo tempo, apresentar atividades que façam sentido para a criança. Pode ser uma brincadeira, uma leitura, um jogo ou até mesmo a participação em tarefas simples do cotidiano. Quando a tela é retirada sem que exista outra opção interessante, o conflito acaba sendo quase inevitável”, explica.
A especialista ressalta que o excesso de estímulos digitais pode influenciar o comportamento infantil, especialmente em relação à concentração, à paciência e ao controle emocional. Sons, vídeos e conteúdos rápidos ativam mecanismos de recompensa imediata, o que pode dificultar a adaptação da criança a atividades que exigem mais atenção e tempo.
Nesse contexto, situações cotidianas podem se transformar em oportunidades de aprendizado e conexão familiar. Durante as refeições, por exemplo, em vez de recorrer ao celular para entreter a criança, os pais podem estimular conversas, contar histórias ou despertar a curiosidade sobre os alimentos que estão à mesa.
“O exemplo continua sendo a ferramenta mais poderosa na educação. Quando a criança vê os adultos utilizando o celular o tempo todo, ela entende que aquele comportamento é normal e desejável”, observa Jaci.
Além disso, a pedagoga destaca a importância de experiências que estimulem a criatividade, a imaginação e a interação social. Livros ilustrados, brincadeiras ao ar livre, jogos, atividades artísticas e a participação na rotina da casa ajudam a construir vínculos mais fortes e reduzem, de forma natural, a dependência dos dispositivos eletrônicos.
“A criança precisa estar envolvida em experiências reais. Quanto mais ela brinca, cria, explora e participa da vida familiar, menor tende a ser a necessidade de buscar entretenimento exclusivamente nas telas”, conclui.
